Anotações de Ética #6 – A revolução da ética socrática

7 nov

Sócrates, o cara.

Anotações do volume 1 (Das origens a Sócrates) de História da Filosofia Antiga, de Giovanni Reale

Palavras-chave: auto-domínio, domínio sobre a própria animalidade, autarquia, liberdade.

- Sócrates não trava da physis. Ele considerava tal pretensão impossível, ale de ser uma ofensa aos deuses, uma vez que sendo a physis obra dos deuses, a tentativa de explicá-la “diminui” a glória da atuação divina.
- Sócrates se preocupava com conhecimentos que pudessem tornar os homens excelentes.
- A ética socrática é antropológica: voltada para o homem.

– Enquanto para o orfismo, a alma emerge nos estados inconsciência. Para Sócrates a alma surge da consciência/conhecimento.
- Orfeu é visto como o fundador de ritos orficos de expiação pelos pecados do homem. Os procedimentos – os cultos, os banhos – são necessários para limpar a culpa do homem. A idéia é que a alma é mais importante do que o corpo.
- Sócrates trouxe a filosofia do céu para a terra.
- O homem é a sua alma, uma vez que é a alma que o distingue de outros animais. Por isso, por alma, Sócrates entende a consciência pensante e operante, com a nossa razão e com a sede da nossa atividade pensante e eticamente operante. Melhor: alma é o eu consciente, é a personalidade intelectual e moral.
- A partir de Sócrates passa a interessar ao homem a morte pacificada. A antiga morte heróica é tratada como arcaica. Morte heróica x Morte pacificada.
- O método de Sócrates para obtenção da verdade é a maiêutica. O conhecimento já está com a pessoa. Ao filósofo cabe a tarefa de ajudar nascer, como uma parteira.
- O objetivo do indivíduo deve ser “conhecer a si mesmo” e “cuidar de si mesmo”. Os bens materiais são secundários.
- Sócrates fala da educação: “se nos conhecermos, saberemos talvez também qual é o cuidado que devemos ter com nós mesmos: se não nos conhecermos, jamais saberemos”.
- O essência do homem deve ser buscada na psychê.
- Por Arete, Sócrates entende ser aquilo que permite a alma ser boa, segundo a natureza que ela deve ser: detentora de razão.- Virtude é conhecimento e falta de virtude ignorância.
- A valor supremo é o conhecimento, uma vez que é o conhecimento que faz a alma ser do modo como deve ser.
- Desde que subordinados à alma (a razão), o corpo e os bens materiais não são maus.

Autodomínio, liberdade interior e autarquia
- A ética socrática está baseada no auto-conhecimento, na paz interior, no equilíbrio (mediania). E não mais na morte heróica, mas na morte pacificada.
- Lema: “conhecer bem, para agir bem e viver bem”.
- A alma é a base do centramento. Ter autodomínio é fazer a alma senhora do corpo; a razão senhora dos instintos.
- O caráter é algo formado pela liberdade, pelas escolhas. É a identidade do indivíduo formada a partir de suas escolhas, da realização da consciência.
- A liberdade está ligada ao autodomínio; racionalidade sobre a animalidade.
- Para Sócrates, o único homem livre é aquele que age com base na consciência, de acordo a alma, através do exercício da razão.
- Autarquia = autonomia da virtude e do homem virtuoso.
- Virtude é a busca de conhecimento.
- O conceito de autarquia leva a duas afirmações: “autonomia com relação aos impulsos físicos através do controle da razão”; “basta a razão para a felicidade”.
- O homem autárquico não carece de nada e, por isso, se aproxima de Deus.
- Fala-se também de uma autarquia técnica, que é a capacidade de fazer tudo que se precisa para viver.

O prazer, o útil e a felicidade
- Não prega o abandono ao prazer como algo que pode trazer felicidade, mas sim uma sábia mensuração do prazer: uma dosagem.
- A razão deve mensurar o prazer.
- A falta de domínio de si leva ao tédio mesmo as atividades prazerosas.
- Os bens do corpo e os bens exteriores não é bem, nem mal, mas depende do uso que se faça. Se submetido ao julgamento da razão, são positivos.
- No entanto, a felicidade não depende do prazer como tal, nem de qualquer bem exterior ou corpo, mas sim dos bens da alma. Deve-se buscar o aperfeiçoamento da alma através do conhecimento.
- A felicidade não depende da sorte. O justo é feliz. E o injusto infeliz.
- “O útil para Sócrates é sempre (ou prioritariamente) o útil da alma. O útil do corpo só lhe interessa em função do útil da alma”.- A virtude é autárquica, porque traz em si a felicidade.
- Não se pode perder de vista que Sócrates quer ensinar aos homens a serem felizes através do cultiva da eudaimonia, sem a necessidade de projeção de uma felicidade numa vida futura.

Amizade
- Sócrates liga o conceito de amizade ao valor moral.
- Bom amigo é o homem virtuoso, autárquico e com autodomínio: capaz de cuidar das almas.
- A amizade não se dá por carência, mas por amor.

Política
- Para Sócrates, a ética/moral é base para a política.
- Sócrates não curtiu a política militante.
- O verdadeiro político é o homem moralmente perfeito na dimensão alma e capaz de cuidar da alma dos outros.

O fim da alma
- Para Sócrates, por sua vez, o destino do homem não é um grande problema. O homem vai para o Hades? (onde se fabrica aquele suco de caixinha?). Não necessariamente. Pode ir para lugar nenhum.
- A morte para Sócrates não é um problema.

Paradoxos
- A virtude é uma questão de conhecimento. Se o indivíduo conhece o bem, faz o bem.
- Ele não considerava a existência da falta do domínio de si (que depois S. Paulo fala com tanta propriedade); ele considerava que ninguém poderia agir contra aquilo que conscientemente achasse melhor.
- De fato conhecer o bem é condição necessária, mas não suficiente. É salutar considerar a vontade.

Anotações gerais
- No pensamento grego, a idéia de pecado não está sedimentada. Depois, em Santo Agostinho, o pecado é visto como escolha, ou seja, exercício do livre arbítrio.
- Em Platão aparece uma idéia de queda da alma de um plano superior para encarnar nos homens.
- Os cristãos demoram para resolver a explicação do pós-vida. Para os cristãos existe uma tradição que se encarrega disso: a teologia. Para os gregos está tudo junto na filosofia.
- Ser, para a filosofia, é a categoria completa (plena) que só compete a Deus.
- O Ser (Deus) é o único que não tem carência.
- Neste momento, a filosofia faz uma ligação entre religião e razão.

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