Discurso da formatura em Comunicação da turma 2010.2 da Facom-UFBA

11 jan

Oi. Tive o grande prazer de ser o orador da turma 2010.2 da Facom-UFBA. E, atendendo a sugestão de um amigo, vou deixar o discurso aqui:

Saber que nesta turma de comunicólogos qualquer um poderia ocupar este púlpito aumenta em muito minha responsabilidade, mas na mesma proporção aumenta a satisfação de poder falar aos colegas, professores, amigos e familiares. Obrigado pela oportunidade!

***

Hoje é um dia solene para nós. Tornamos-nos socialmente reconhecidos como profissionais da comunicação, uns Jornalistas, outros Produtores Culturais.

Acontece agora um rito de passagem, uma celebração pública de alguns teimosos que estudaram nos últimos quatro ou cinco anos, alguns mais, para formarem-se humanistas e profissionais.

Houve dias de sorrisos e dias de lamentações; dias que se emendaram uns aos outros pelas madrugadas de estudo e dias de descanso; dias de adrenalina e dias de tédio, mas foram sempre dias que nos envolveram e transformaram nossas vidas.

Esta conquista representa a afirmação da capacidade de realização individual, mas principalmente reafirma a importância daquelas pessoas com quem convivemos. Para as famílias e amigos é um momento de festa ao ver que um dos seus venceu as próprias limitações ao formar-se um profissional da comunicação e, muito mais, um humano autônomo simbólica e materialmente. Ou, pelo menos, deveria ser assim.

Para receber a glória por este feito, cada um de nós pagou um preço. Alguns saíram de casa, em direção a uma cidade desconhecida, com pessoas desconhecidas: um mundo novo, encantador e assustador.

Em algumas circunstâncias estivemos longe de pessoas que amamos, mesmo que fisicamente perto. Houve dias de saudade e dias de desespero.

Alguns de nós enfrentamos a resistência da família e dos amigos. “Como assim jornalismo? Produção Cultural? O que é isso? É bonito, mas você vai viver de beleza?” No entanto, mesmo sem entender, estas pessoas nunca nos abandonaram.

Mas a dificuldade da batalha só aumenta o brilho da vitória. E, protegidos por Deus (para os que, como eu, acreditam), munidos de uma teimosia irracional, amados por pessoas tão nossas – pais, tios, avós, namoradas e amigos – sempre soubemos que os resultados trariam a glória, mas o quê realmente importa nesta vida nós já tínhamos: o amor de vocês.

Certamente a formação em nível superior destas 19 pessoas é a consumação do esforço de muita gente. Quantos dos nossos pais, muitos deles sem a oportunidade de freqüentar uma universidade, trabalharam ao longo da vida para que tivéssemos todas as condições favoráveis para este feito?

***

Contudo, profissionalizar-se é também ocupar uma função na sociedade. E nesta aclamada sociedade da informação, em que atores, idéias, problemas e soluções só existem socialmente quando retratados em telas e páginas, o trabalho dos jornalistas e produtores culturais ganha uma dimensão política desconhecida em outros em momentos da história recente. Os jornalistas e produtores culturais selecionam, filtram e classificam os conteúdos que ganham visibilidade e povoam os imaginários.

Desta forma, a existência simbólica de indivíduos, movimentos culturais, estéticos e políticos dependem, em grande medida, de profissionais, como os que hoje aqui se diplomam. Estes vão escolher com quais cores e texturas compor os jornais, revistas, discos, livros e exposições de arte.

Não é exagero dizer que, nestes tempos, o justo e democrático debate de idéias e posições depende da atuação dos profissionais da mídia e da cultura, responsáveis por fazer circular informações, emoções e disposições que servirão de insumos à formação do imaginário e da opinião pública.

Por isso que, na contramão dos discursos correntes, precisamos defender a profissionalização a fim de assegurar que a composição das representações sociais de idéias e posições na Indústria da Comunicação seja atividade de indivíduos gabaritados e responsáveis para tanto.

E respondendo aos argumentos recorrentes de que a desregulamentação da comunicação e da cultura é importante para garantir a liberdade de expressão, precisamos explicar que o direito a ter e emitir opinião deve estar ao alcance de todos quando assim o quiser.

No entanto, emitir opinião sobre algo é diferente da produção cotidiana de narrativas sobre a realidade social; emitir opinião sobre algo é diferente da obrigação de lidar com a escolha dos temas que ganham visibilidade e dos temas que são silenciados.

Defendemos que as atividades de produção da Comunicação têm peculiaridades que exigem formação especifica, técnica e ética, além de que a organização de um campo profissional orientado pelo bem comum e pelo imperativo da pluralidade permite que a visibilidade seja estendida para além dos que já detêm poder de fala.

Por fim, gostaria de convocar a lembrança de que a realidade social imediata não se configurou deste modo por forças desconhecidas, mas por decisões humanas; sendo assim, saibamos que pela capacidade de ação individual e coletiva podemos construir o futuro no sentido de mais liberdade aos indivíduos, mais justiça social e de dinâmicas mais democráticas, o que se faz, acredito, com o pluralismo de vozes.

***

Nesta ocasião gostaria de cumprimentar os colegas e amigos pela disposição e coragem de atuar na Comunicação em tempos tão desafiadores. Mesmo com todas as dificuldades, cada um vai encontrar o seu rumo, ou, os que não acreditam em destino, vão construir a machado. Alguns vão para jornais, assessorias de imprensa, televisão, internet… Outros vão continuar estudando, em pós-graduações ou línguas estrangeiras enquanto passeiam pelo mundo.

Mas seja lá onde estivermos, saberemos sempre que a experiência pela qual passamos na Faculdade de Comunicação da UFBA foi transformadora, seja pelos conhecimentos ou pelas amizades que levaremos para toda a vida.

Em nome de todos os colegas, gostaria de agradecer a comissão de formatura – Danielle Villela, Mariana Reis, Tayane Bragança e Flora Cássia – pelo desprendimento, cuidado com cada um de nós e paciência com as nossas expectativas conflitantes.

Gostaria de agradecer aos bons professores e funcionários desta Universidade que, mesmo com todas as limitações externas e internas, fazem desta instituição um centro de excelência, inclusive no campo da Comunicação. Salve a Universidade Pública, lugar privilegiado para a formação crítica e de alto nível! E o mais importante, acessível para toda a sociedade: enquanto for necessário, viva as Cotas para negros e estudantes de escola pública!

Gostaria, especialmente, de agradecer aos familiares e amigos, que compõem majoritariamente a platéia, pela companhia e ajuda ao longo da vida e por terem contribuído para este momento.

Como a impessoalidade é fria e não conheço a família dos colegas, peço licença para falar da minha, como forma de lembrar a importância destas pessoas para nossas vidas, sejam pais e mães nos moldes tradicionais ou as pessoas que nos fizeram gente.

Nasci em Vitória da Conquista e nos primeiros meses fiquei sob o abrigo dos meus avós paternos; cresci na Fazenda Deus Dará, sem desenhos animados, internet ou eletricidade, mas tinha o exemplo da minha mãe, professora sem formação que ensinava tudo que sabia para as crianças da região. Aos 5 anos meus pais se mudaram para Poções com a desculpa de eu precisava estudar em escola de verdade. Lembro que meu Pai era orador dos melhores, não havia assunto sobre o qual não tivesse opinião. Diziam que quase foi advogado, mas não saiu da quarta série. Minha mãe e meu pai eram inteligentes e quis ser como eles.

Passava as férias na fazenda dos meus avôs maternos. Com minha avó Raquel aprendi a paciência do sertanejo e com meu avô Maneca o ofício de vaqueiro. Era preciso gritar forte, mas não perder a sensibilidade para cuidar do gado. Quando eu tinha 12, meus pais se mudaram novamente. Eu continuei estudando, sem grandes expectativas, mas eles acreditavam em mim. Quando comecei a trabalhar no Jornal de Jequié aos 14 anos, eles não disseram nada, como também não disseram quando decidi fazer jornalismo, mas no silêncio tinha apoio. Em Salvador, tive a companhia de grandes amigos, pessoas com quem dividi o teto e outros com quem dividi o sonho de uma carreira acadêmica. Sonhei especialmente com minha namorada, e agora noiva, que mesmo longe, esteve sempre presente. Mas, o que me deixa especialmente feliz nesta noite é saber que quando vim para Salvador em busca do Jornalismo, meus pais, que sempre fizeram tudo para eu estudar, ficaram em Jequié com a saudade e com a confiança de que daria certo.

A todos, MUITO OBRIGADO!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.